Jorge Duarte traça um perfil dos assessores de comunicação.
Para Jorge Duarte, autor do livro ‘Assessoria de imprensa e relacionamento com a mídia: teoria e técnica’, da Editora Atlas, o título de assessor de imprensa está defasado. O nome não define mais o perfil de quem trabalha nos departamentos de imprensa das organizações. “Boa parte dos profissionais, hoje, atua como gestor de processos de comunicação”, afirma o jornalista, que atualmente trabalha na Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República.
Qual deve ser o perfil do profissional para trabalhar em assessoria de imprensa?
Jorge Duarte – O profissional deve ser profundo conhecedor das redações, do processo de produção da notícia e da forma de atuação do jornalista. Deve ter, também, capacidade de interlocução interna e habilidades em planejamento e avaliação. Acredito que uma das principais necessidades, hoje e cada vez mais, é ter consciência de que a comunicação é um processo amplo, que envolve todas as áreas da organização e exige estratégias e ações sistemáticas e consistentes com variados públicos de interesse. O comunicador deve ter a consciência de que assessoria de imprensa é apenas uma das ferramentas da comunicação. Fundamental, importante, mas apenas uma das possibilidades e das necessidades.
O setor de assessoria de imprensa, já há algum tempo, deixou de ser considerado ‘patinho feio’ no mercado e cada vez mais assume importância estratégica para as empresas. Qual, afinal, é o papel do assessor de imprensa em uma organização?
J. D. – O papel básico é facilitar o trabalho da imprensa, de maneira que a sociedade tenha acesso às informações da organização. Há uma série de necessidades fundamentais em decorrência dessa. Acho que um dos maiores desafios do assessor hoje é lidar com dirigentes, técnicos e outros integrantes da organização. Ter a capacidade de treinar fontes de informação, de mostrar o potencial da comunicação, de atuar e ser respeitado tecnicamente. Na verdade, o nome assessor parece-me defasado. Assessor limita-se a assessorar. Boa parte dos profissionais, hoje, atua como gestor de processos de comunicação.
Quais seriam as qualificações desse gestor de processos de comunicação?
J. D. – São muitas quando se pensa no potencial da atividade. Conhecer como funcionam as diferentes redações das diferentes mídias, como pensa e age o jornalista, o que é notícia e tudo que diga respeito ao jornalismo em ação é o básico. Deve também enfatizar os ritos, os processos, os fluxos, a capacitação, a qualificação da equipe e da estrutura de comunicação. Além disso, é fundamental atuar como estrategista, ser proativo – ter iniciativa, saber e fazer planejamento, conhecer as prioridades da organização e agir a partir delas.
As assessorias de imprensa absorvem muitos profissionais de comunicação, inclusive recém-formados. As faculdades têm dado a devida atenção à matéria ‘assessoria de imprensa’ em seus currículos?
J. D. – Não. Mesmo quando têm essa disciplina, não me parece suficiente em muitos casos, dado às demandas atuais do mercado. O assessor, atualmente, deve ser estrategista, capaz de fazer análise de cenário, de fazer planejamento adaptado para diferentes mídias, ser capaz de treinar fontes, de lidar com processos de comunicação, de preparar documentos de variados tipos e, até mesmo, organizar eventos para a imprensa. Uma solução é dar ênfase em comunicação organizacional nos cursos, se o objetivo é preparar o profissional para o mercado de trabalho atual.
Uma questão difícil de enfrentar é que essa opção retira conteúdo da área tradicional do jornalismo, que é a preparação para pensar e atuar na comunicação de massa. A comunicação institucional exige outro tipo de visão. Acho que cada faculdade deve fazer suas opções com base na realidade local, na política da instituição, no objetivo do curso, nas necessidades do aluno e do mercado. O problema que vejo é que, muitas vezes, o aluno não é orientado ou preparado para o que vai encontrar quando terminar o curso: muito mais oportunidades no mercado da comunicação institucional, uma área que hoje está muito mais exigente que no passado.
Existem conflitos no mercado com relação a quem deve assumir as assessorias de comunicação, se é o profissional de relações públicas ou o jornalista? Ou, ainda, se assessor de imprensa é considerado jornalista?
J. D. – Esse é um tema complexo e tem sido difícil de lidar no Brasil. Existe o conflito, mas acho uma bobagem enorme, uma perda de energia, desperdício de tempo, fonte de desgastes desnecessários e sem sentido. A discussão deveria ser sobre como melhorar a comunicação nas organizações, como podemos avançar, fazer com que a sociedade seja mais bem informada, as organizações sejam mais transparentes, a informação seja adaptada ao público, a interação se processe em bases adequadas, os profissionais atuem de forma integrada.
Em seu livro ‘Assessoria de imprensa e relacionamento com a mídia: teoria e técnica’, há dois capítulos explorando as características das assessorias de imprensa nos Estados Unidos e na Europa. São realidades muito diferentes da brasileira?
J. D. – Os modelos variam bastante, embora a principal diferença pareça estar na relação com o Brasil, que apresenta uma situação bastante específica, dado à legislação que regulamenta as profissões e à formação profissional. Acho que não é o caso de transplantar soluções ou adaptar modelos, mas aperfeiçoar o que temos. E podemos aprender bastante com a forma com que eles atuam, assim como o Brasil, por sua experiência singular, pode servir de referência em vários aspectos.
Fonte: Nós da Comunicação.





